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domingo, 24 de setembro de 2017

A quem dera você?

Vejo a sua autoridade, suas leis, suas regras, suas verdades.
Temo que seja sua força a primeira arma a me atingir. Pudera ser menos confiante e viril.
Pudera ser terno, frágil, alcançável.
Quem dera fosse paisano transeunte na calçada, alguém que lê os folhetos entregues nos faróis.
Tão absolutamente superior, agnóstico, descrente, transcendente.
Ao passo que segues indiferente, arrasta todas as coisas quem pretendam atrelar-se a ti, aos solavancos. 
Quem dera distração momentâneo o permitisse ser alvo, atingido, tocado.
Passos, compassos e descompassos, tocam sua caminhada.
Sinfonia desajustada, barulham e desafinam os tons, graves instrumentos a cortar intenções e planos. Fosse música na caminhada, agradável melodia suave aos ouvidos.  
Quem dera fosse audível o susurrar das minhas súplicas pela sincronicidade dos teus passos com meus compassos. 
Quem dera ver a tua banda passar. 




quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Minha bonequinha

Eu não sou mais uma bonequinha.Nem sua, nem minha.
Honestamente nunca estive a cargo de ser nada em seu nome. 
O meu corpo sempre me pertenceu,  nunca foi um brinquedo seu.
Um empoderamento sempre à espera do momento em que eu saltaria da insólita condição a que estava submetida por uma falsa ideia de fragilidade.
Bonequinha de porcelana, frágil, quebrável, em suas mãos.
Na contramão da dignidade, caminhava atrelada aquela mão estendida. Mesma mão que me empurrava ao abismo.
Saltei para o mundo onde os meus cabelos podem ter qualquer cor que não exista, qualquer tinta que declare o quanto minha é a escolha.
Não há brasa acesa em um punhado de fumo enrolado que me submeta à necessidade de mostrar uma liberdade. De tão livre, apaguei esmagado em um cinzeiro, o último cigarro.
Podem ser verdes ou azuis, pintadas e até mesmo descascadas as unhas que crescem sem que as cerre com meus dentes ansiosos e inseguros.Crescem coloridas garras que vezes se partem, mas que continuam afirmando e crescendo reafirmando o quanto minha passei a ser.
Na descoberta de novos cremes e pós com diferentes texturas e aplicações, a ousadia de maquiar as marcas do vento, do sol, das lágrimas. Criar novos personagens com caras e bocas de lábios em labaredas pegando fogo com vermelho intenso batom.
Eu fui um objeto de distração, satisfação de toda uma conceitual regra , moral ou ética. Eu fui, desfazendo, pouco a pouco, as tramas que me teciam, No desenrolar dessa meada, embaraçada me sentia por não saber mais quem eu era. Quis arrematar. Soltei o fio, deu um nó, apertado, repuxado e quando quase partindo, rasguei em mil tiras os véus que me encobriam.
Estou livre, até mesmo daquilo a que me algemei durante toda a vida, absolvida de cargos e regras e conceitos e títulos e culpas e em uma descoberta de uma prenda que sempre puder ser, dada a mim.



quarta-feira, 2 de agosto de 2017

solo

Um dia eu tive um lindo sonho. Acreditei nele com todas as minhas forças. Investi todo o meu amor e minha dedicação nisso. Fiquei por um bom tempo com aquela sementinha guardada no meu . Plantei. Há exatamente 11 anos.
Minha plantinha passou por muitos invernos cortantes e algumas primaveras floridas. Às vezes parecia ser indestrutível e outras vezes ficava tão frágil. .mas estava ali.
Minha plantinha murchou, minha plantinha secou, acho mesmo que minha plantinha morreu.
A...inda tenho sonhos e sementinhas de amor para plantar na vida, mas não deixa de ser triste ver uma plantinha morrer mesmo no meio de uma floresta.
Só estou um pouco triste por ver o fim da minha semeadura. Meu solo está exausto. Minha natureza hoje está fora da estação, sem saber mais o que é inverno ou verão.
As noites vão trazer novos sonhos.
Os dias vão trazer novos ventos.
A chuva vai molhando a terra e um dia quando novamente eu semear uma plantinha, vou lembrar do quanto aprendi com o fim do que foi semeado e se perdeu.

quinta-feira, 27 de julho de 2017

novo olhar

Uma estranha me olha através do reflexo do espelho.
Passava eu rapidamente. Ela estava lá, reproduzindo cada movimento. Passava a mão pelos cabelos e parou a observar. Correspondo. Mas dessa vez, não apenas a vejo.  
Observo atentamente cada linha de expressão, cada marca de suas habituais caras e bocas, revelando uma história de caminhos algumas vezes fatigantes. Aquele nariz fino, numa curva de pouco menos de noventa graus, apontava em minha direção quase como uma afronta, uma acusação. Me aprofundo em cada gota de pigmento formador das nuances de cores em seus olhos.  Sua pele de pouca melanina a penugem fina aloirada, quase branca em alguns pontos. Observo as milhares e diferentes, formas e tamanhos das sardas distribuídas em apenas alguns pontos estratégicos, muitas cores, texturas, formando uma faixa que me lembram estrelas agrupadas em galáxias no universo. Os cílios curtos realçados pela máscara preta, o olhar agateado produzido pelo delineador fino ultrapassando as extremidades laterais de seus olhos. Pequenas bolsas nas pálpebras inferiores lembrando vagamente certas noites insones.  Seus lábios semiabertos, levemente rosados, simulam um sorriso com algum toque intrigante de malícia e talvez um certo medo.  
Dediquei alguns minutos a essa observância nova de uma mesma imagem há anos reproduzida em diferentes recortes frios de vidro polido e suas coberturas de sal de Prata, vezes cacos, outras pedaços; reflexo inteiro, vezes estilhaçado. 
Não reparei se havia simetria naquele rosto não tão novo e sutilmente marcado, mas senti a perfeita harmonia encontrada nas coisas criadas pela natureza. 
Seduzidas pela luminância da reflexão, dilatadas as pupilas a abriram um caminho novo até uma nova percepção da mesma visão, piscavam os olhos surpresos. Senti percorrer as terminações nervosas, do centro até as extremidades do meu corpo, qualquer substância sem nomenclatura a me causar espantoso prazer e admiração. 
Abalo, certo tremor, ebulição sanguínea fervilhando um rubor em meu rosto. Nó na garganta, respiração contida, glândulas lacrimais ativadas, inquietação.
O olhar, a maneira de enxergar, como pés que percorrem uma mesma estrada todos os dias e certa vez tropeçam em uma nova pedra do caminho, viram, desta vez enxergaram o que sempre esteve ali. 
Não sei bem se os olhos, ou as lentes, mas é sabido que algo novo haja visto. 
Maviosa descoberta de amar-se como indivíduo e enxergar-se com a beleza de ser imperfeito.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

O DOM

É mesmo um dom a felicidade, a habilidade em ter alegria. Lembrar do sorriso como present que é único e em cada entrega celebra a troca de infinitas coisas boas e multiplicáveis ao encontro do mesmo dom de ser feliz. Sorriso é condutor, de felicidade, de alegria e do próprio amor.
É preciso coragem para ser feliz, sabedoria para discernir o que de fato é a felicidade.
pode ser qualquer coisa ou coisas alguma. Pode-se passar toda a vida em busca desse encontro e também há meios de encontra-se em si e assim ser feliz sem sair do lugar.
Eu queria mesmo é que a vida pudesse ser uma peça onde eu possa vestir o sorriso como roupa de baixo que se escolhe vestir por cima, meio super-heroína, onde a alegria estivesse em uma caixinha de música sempre aberta em meu próprio coração, onde o instante que se passa fosse mais celebrado do que o futuro é aguardado, onde eu pudesse viver o sonho de uma realidade de sucesso, não importante seria o quão aplaudida eu tivesse que ser.
Eu queria o dom, sem que fosse um dom de encenação.

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Um motorista passageiro


Embarcou nessa viagem uma indomada 
moça sorridente de coração partido.
Cometia ela o pecado de amar desgovernada.
Amar sem freios.
Seguia por um caminho desconhecido, sem temer o perigo.
Quis voltar, devolver o bilhete, carregar as malas, abrir a porta do carro... Dirigir!
Olhava pela janela e os vultos das árvores e do vento lhe confundiam os pensamentos.
Nem se lembrava mais do ponto de partida, queria parar ao tempo em que queria continuar, sem nem ao menos saber onde pretendia chegar.
Inutilmente dizia não, para em seguida sucumbir ao coração.
Sensível e frágil essa menina fera, havia desistido dessa guerra.
Ao passo que, sem admitir, seguia ele guiando, seguia também amando.

Bateu de frente a decepção.

O amor fugiu ligeiro

Aqui não há mais nenhum passageiro.

Dá próxima vez, não vá se  arriscar.

Pegue outro trem e siga em frente

Nem todo mundo que sabe guiar....

...sabe amar como a gente!

Aprenda essa lição:

Que sabe ser motorista

Evita a colisão!

sábado, 31 de dezembro de 2016

De repente, o hoje torna-se o passado que tem que ser escondido a sete chaves. Em um instante, segui e não posso mais lembrar dos caminhos por onde andei.
Posso saltar os estágios e parecer confiante, segura, decidida. Num pulo, estou em outra vida, outros rumos, outras coisas, pessoas, outros. Mas assim que paro um segundo, tomo fôlego dessa veloz continuidade que as coisas exigem que eu tenha, está ali, tudo o que eu pensei poder ignorar. 
Posso encarar o desafio e assumir o personagem feliz, alegre. Satisfazer as espectativas todas criadas a respeito do modo como devo lidar com as dores, desabores. Posso muito bem estampar um sorriso largo, rir sutilmente ou até soar e ressonar gargalhadas escandalosas. Sou capaz de criar uma imagem Plena de felicidade e satisfação.
Nada faria em mim apagar essa verdade, essa torção interior dos órgãos. Uma cena de uma peça que pareça o que a platéia paga para ver. Enfrento o palco, sem ensaios, sem teste, saio de cena com alguns ruídos imitando aplausos.
No camarim me desfaço desse personagem que me faz muito mais parecer um palhaço.