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quinta-feira, 3 de maio de 2018

Fim do mundo


Precipitadamente, acreditei ter a clareza do sentimento e de toda a capacidade de amar garantida pela sua existência. Certa de que o controle sobre as coisas estava na habilidade em racionalizar, assumi o risco em lançar mão das impalpáveis sensações de prazer e êxtase alternadas às de pungência da dor. 
Contruí um mundo inteiro sem alicerces. 
Diante de mim, por entre os dedos, esvaíram cada uma das muralhas que pensei protegerem-nos dos ataques. Vinham de dentro. Escorrem pelos degraus os cômodos, um a um, destituídos desse título ao desajustar de suas funções às necessidades. 
O frio congelante do restar das paredes nos cômodos ficando vazios, em equidade com a temperatura dos meus órgãos em falência. Os furos aparentes que já sustentaram os armários e quadros, tão equivalentes ao abismo que já foi a base para uma vida inteira. A unidade, dividida em pequenas partes encaixotadas em embalagens fechadas, como mentes vácuo, rotuladores  e seus papelões sem argumentos e sem aderência, desclassificados,  mal organizados. 
Queima de estoque dos pequenos itens que já compuseram um amor, oferta barata por qualquer chance de vida, sem crédito, descontando em mim a dor,  cobrança eterna, altos custos, falência! 
Desmontam-se sonhos com ferramentas de marcenaria; sem sustentação a cada torcer que desse certo e distorcer de parafusos e realidades. Transportando os móveis; sofás; armários e estantes, sem base para retratos de família, um mundo inteiro sendo levado em carga a frete. Movimento do corpo, inércia de atitudes.
Passam gatunos pela calçada sem que os espantem os latidos uivos do cachorro, tal e qual se instalaram em partes substanciais do nosso território. 
No alto do pé direito, apagadas as luzes nos lustres. Interruptores de uma temporada de um teatro decadente sem mais apresentações de ilustres participações especiais. Retiradas as cortinas, rasgadas, sem trilho. 
O último bater da porta ecoa o impacto perturbador do fim do mundo, daquele nosso mundo, fim do nós. 

domingo, 4 de março de 2018

Nós

Repouse seus anseios no meu mundo, descanse sua procura em nosso encontro e preencha suas lacunas com a minha existência.
Não me siga nem me arraste. Me dê a sua mão e criemos juntos um novo caminho.
Nossa equação é perfeita com todas as incógnitas. Nem as teorias todas podem explicar a perfeita equação de nós dois sermos um.
Seja o céu do meu mundo e cubra cada parte da minha vida.
Fale sobre qualquer amenidade ou apenas ouça, mas esteja no barulho e no silêncio. Cale-me com seus beijos ou me abrace quando não houver o que dizer.
Interrompa os discursos e rompa os paradigmas. Desconstrua as teorias, ou crie novas teses, mas seja prática dia a dia.
Nomeie, classifique e conceitue, mas sinta além do tangível o que diz o nosso olhar.
Sejamos um plural, bilateral, mas sejamos únicos na entrega. Ininportante as escalas e métricas, sejamos abundância que irrompe as barreiras e transborda os limites e inundam sem medidas.
Seja para mim, tudo o que eu quero ser para você.

Me invade

Quando seu olhar encontra o meu, invade minha alma com suas intenções, rasga, viola todas as delimitações e pudores, meu máximo, meu aceitável, meu eu.
Teu desejo entra em minha vida, me desaquieta. A fusão do seu existir no meu é pura química. 
Me levas ao céu em turbulência, um vôo que passa do teu desejo ao meu até se tornar nosso. 
Escorrem em meu corpo as gotas do suor do teu rosto, inundam minha alma de prazer, preenchem, transbordam. 
O toque, o viço o cheiro da tua pele me incendeiam, queimam e fazem arder mil labaredas em cada parte de mim. 
Quando sinto seu pulsar viril, me contraem os músculos e nervos, perco o tino, falta o ar pra respirar. 
Me vicia teu sabor , teu gosto me satisfaz, me contradiz, me faz querer mais. 
Quando o teu olhar encontrar o meu, me invade?

domingo, 7 de janeiro de 2018

Luto

A distância os vejo a falar sobre qualquer amenidade a fim de esquecerem de mim e a última dor que os faço sentir.
A maioria não via há tempos, nem mesmo consigo entender o que fazem aqui. Aparentemente vieram para não terem que lidar com a culpa por não terem cumprido todas as convenções.
O espetáculo ainda nem se iniciou, todos aguardam pela chegada do que restou de mim para eles até aqui e  que, em breve, nem mesmo isso restará.
Um carro escuro encosta no meio fio,  fazendo com que alguns se afastem.
Um homem comum, em um dia comum de sua vida, desce do carro e caminha  até o baú do veículo. Abre a porta. Uma caixa longa com alguns arabescos em dourado, ganchos metálicos também dourados, que rapidamente atrai meia dúzia de homens para segurar-lhe nas alças fixadas nas laterais daquela caixa muito bem envernizada. Carregam a grande e pesada caixa até o centro da sala onde a depositam sob o apoio ali disposto. Abrem a tampa. É uma imagem nova do que fui.
Gélido, pálido, morto! Assim está o meu corpo. Algumas flores cobrem os membros inferiores deixando somente parte do meu troco e rosto visíveis, elas têm a função de disfarçar a morbidez do meu estado.
Algumas lágrimas passageiras. Tudo é passageiro. A beira de meus pés, essa verdade é avassaladora, mesmo com toda a pungência da dor.
Todo o ímpeto de querer mudar o mundo, ou uma cadeira do lugar, toda a capacidade de avaliar uma melhor maneira de solucionar um problema, ou mesmo de romper paradigmas, agora se resume a um corpo imóvel.
Nada resta e em um piscar de olhos, nem lembrança mais. Todos seguirão com suas rotinas e situações cotidianas que os distraem de qualquer que seja a razão a que tenham vindo.
Uma mensagem póstuma não traz o tempo a tona. Esse tempo que escrevo já é o passado que você lê. Faixas de saudades de fulano e família serão descartadas, são só palavras.
O tempo que se foi era para o beijo que nunca foi dado. O tempo enquanto havia, era para o abraço bem apertado, para a presença adiada.
O tempo era e já era.

domingo, 24 de setembro de 2017

A quem dera você?

Vejo a sua autoridade, suas leis, suas regras, suas verdades.
Temo que seja sua força a primeira arma a me atingir. Pudera ser menos confiante e viril.
Pudera ser terno, frágil, alcançável.
Quem dera fosse paisano transeunte na calçada, alguém que lê os folhetos entregues nos faróis.
Tão absolutamente superior, agnóstico, descrente, transcendente.
Ao passo que segues indiferente, arrasta todas as coisas quem pretendam atrelar-se a ti, aos solavancos. 
Quem dera distração momentâneo o permitisse ser alvo, atingido, tocado.
Passos, compassos e descompassos, tocam sua caminhada.
Sinfonia desajustada, barulham e desafinam os tons, graves instrumentos a cortar intenções e planos. Fosse música na caminhada, agradável melodia suave aos ouvidos.  
Quem dera fosse audível o susurrar das minhas súplicas pela sincronicidade dos teus passos com meus compassos. 
Quem dera ver a tua banda passar. 




quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Minha bonequinha

Eu não sou mais uma bonequinha.Nem sua, nem minha.
Honestamente nunca estive a cargo de ser nada em seu nome. 
O meu corpo sempre me pertenceu,  nunca foi um brinquedo seu.
Um empoderamento sempre à espera do momento em que eu saltaria da insólita condição a que estava submetida por uma falsa ideia de fragilidade.
Bonequinha de porcelana, frágil, quebrável, em suas mãos.
Na contramão da dignidade, caminhava atrelada aquela mão estendida. Mesma mão que me empurrava ao abismo.
Saltei para o mundo onde os meus cabelos podem ter qualquer cor que não exista, qualquer tinta que declare o quanto minha é a escolha.
Não há brasa acesa em um punhado de fumo enrolado que me submeta à necessidade de mostrar uma liberdade. De tão livre, apaguei esmagado em um cinzeiro, o último cigarro.
Podem ser verdes ou azuis, pintadas e até mesmo descascadas as unhas que crescem sem que as cerre com meus dentes ansiosos e inseguros.Crescem coloridas garras que vezes se partem, mas que continuam afirmando e crescendo reafirmando o quanto minha passei a ser.
Na descoberta de novos cremes e pós com diferentes texturas e aplicações, a ousadia de maquiar as marcas do vento, do sol, das lágrimas. Criar novos personagens com caras e bocas de lábios em labaredas pegando fogo com vermelho intenso batom.
Eu fui um objeto de distração, satisfação de toda uma conceitual regra , moral ou ética. Eu fui, desfazendo, pouco a pouco, as tramas que me teciam, No desenrolar dessa meada, embaraçada me sentia por não saber mais quem eu era. Quis arrematar. Soltei o fio, deu um nó, apertado, repuxado e quando quase partindo, rasguei em mil tiras os véus que me encobriam.
Estou livre, até mesmo daquilo a que me algemei durante toda a vida, absolvida de cargos e regras e conceitos e títulos e culpas e em uma descoberta de uma prenda que sempre puder ser, dada a mim.



quarta-feira, 2 de agosto de 2017

solo

Um dia eu tive um lindo sonho. Acreditei nele com todas as minhas forças. Investi todo o meu amor e minha dedicação nisso. Fiquei por um bom tempo com aquela sementinha guardada no meu . Plantei. Há exatamente 11 anos.
Minha plantinha passou por muitos invernos cortantes e algumas primaveras floridas. Às vezes parecia ser indestrutível e outras vezes ficava tão frágil. .mas estava ali.
Minha plantinha murchou, minha plantinha secou, acho mesmo que minha plantinha morreu.
A...inda tenho sonhos e sementinhas de amor para plantar na vida, mas não deixa de ser triste ver uma plantinha morrer mesmo no meio de uma floresta.
Só estou um pouco triste por ver o fim da minha semeadura. Meu solo está exausto. Minha natureza hoje está fora da estação, sem saber mais o que é inverno ou verão.
As noites vão trazer novos sonhos.
Os dias vão trazer novos ventos.
A chuva vai molhando a terra e um dia quando novamente eu semear uma plantinha, vou lembrar do quanto aprendi com o fim do que foi semeado e se perdeu.