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quarta-feira, 2 de agosto de 2017

solo

Um dia eu tive um lindo sonho. Acreditei nele com todas as minhas forças. Investi todo o meu amor e minha dedicação nisso. Fiquei por um bom tempo com aquela sementinha guardada no meu . Plantei. Há exatamente 11 anos.
Minha plantinha passou por muitos invernos cortantes e algumas primaveras floridas. Às vezes parecia ser indestrutível e outras vezes ficava tão frágil. .mas estava ali.
Minha plantinha murchou, minha plantinha secou, acho mesmo que minha plantinha morreu.
A...inda tenho sonhos e sementinhas de amor para plantar na vida, mas não deixa de ser triste ver uma plantinha morrer mesmo no meio de uma floresta.
Só estou um pouco triste por ver o fim da minha semeadura. Meu solo está exausto. Minha natureza hoje está fora da estação, sem saber mais o que é inverno ou verão.
As noites vão trazer novos sonhos.
Os dias vão trazer novos ventos.
A chuva vai molhando a terra e um dia quando novamente eu semear uma plantinha, vou lembrar do quanto aprendi com o fim do que foi semeado e se perdeu.

quinta-feira, 27 de julho de 2017

novo olhar

Uma estranha me olha através do reflexo do espelho.
Passava eu rapidamente. Ela estava lá, reproduzindo cada movimento. Passava a mão pelos cabelos e parou a observar. Correspondo. Mas dessa vez, não apenas a vejo.  
Observo atentamente cada linha de expressão, cada marca de suas habituais caras e bocas, revelando uma história de caminhos algumas vezes fatigantes. Aquele nariz fino, numa curva de pouco menos de noventa graus, apontava em minha direção quase como uma afronta, uma acusação. Me aprofundo em cada gota de pigmento formador das nuances de cores em seus olhos.  Sua pele de pouca melanina a penugem fina aloirada, quase branca em alguns pontos. Observo as milhares e diferentes, formas e tamanhos das sardas distribuídas em apenas alguns pontos estratégicos, muitas cores, texturas, formando uma faixa que me lembram estrelas agrupadas em galáxias no universo. Os cílios curtos realçados pela máscara preta, o olhar agateado produzido pelo delineador fino ultrapassando as extremidades laterais de seus olhos. Pequenas bolsas nas pálpebras inferiores lembrando vagamente certas noites insones.  Seus lábios semiabertos, levemente rosados, simulam um sorriso com algum toque intrigante de malícia e talvez um certo medo.  
Dediquei alguns minutos a essa observância nova de uma mesma imagem há anos reproduzida em diferentes recortes frios de vidro polido e suas coberturas de sal de Prata, vezes cacos, outras pedaços; reflexo inteiro, vezes estilhaçado. 
Não reparei se havia simetria naquele rosto não tão novo e sutilmente marcado, mas senti a perfeita harmonia encontrada nas coisas criadas pela natureza. 
Seduzidas pela luminância da reflexão, dilatadas as pupilas a abriram um caminho novo até uma nova percepção da mesma visão, piscavam os olhos surpresos. Senti percorrer as terminações nervosas, do centro até as extremidades do meu corpo, qualquer substância sem nomenclatura a me causar espantoso prazer e admiração. 
Abalo, certo tremor, ebulição sanguínea fervilhando um rubor em meu rosto. Nó na garganta, respiração contida, glândulas lacrimais ativadas, inquietação.
O olhar, a maneira de enxergar, como pés que percorrem uma mesma estrada todos os dias e certa vez tropeçam em uma nova pedra do caminho, viram, desta vez enxergaram o que sempre esteve ali. 
Não sei bem se os olhos, ou as lentes, mas é sabido que algo novo haja visto. 
Maviosa descoberta de amar-se como indivíduo e enxergar-se com a beleza de ser imperfeito.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

O DOM

É mesmo um dom a felicidade, a habilidade em ter alegria. Lembrar do sorriso como present que é único e em cada entrega celebra a troca de infinitas coisas boas e multiplicáveis ao encontro do mesmo dom de ser feliz. Sorriso é condutor, de felicidade, de alegria e do próprio amor.
É preciso coragem para ser feliz, sabedoria para discernir o que de fato é a felicidade.
pode ser qualquer coisa ou coisas alguma. Pode-se passar toda a vida em busca desse encontro e também há meios de encontra-se em si e assim ser feliz sem sair do lugar.
Eu queria mesmo é que a vida pudesse ser uma peça onde eu possa vestir o sorriso como roupa de baixo que se escolhe vestir por cima, meio super-heroína, onde a alegria estivesse em uma caixinha de música sempre aberta em meu próprio coração, onde o instante que se passa fosse mais celebrado do que o futuro é aguardado, onde eu pudesse viver o sonho de uma realidade de sucesso, não importante seria o quão aplaudida eu tivesse que ser.
Eu queria o dom, sem que fosse um dom de encenação.

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Um motorista passageiro


Embarcou nessa viagem uma indomada 
moça sorridente de coração partido.
Cometia ela o pecado de amar desgovernada.
Amar sem freios.
Seguia por um caminho desconhecido, sem temer o perigo.
Quis voltar, devolver o bilhete, carregar as malas, abrir a porta do carro... Dirigir!
Olhava pela janela e os vultos das árvores e do vento lhe confundiam os pensamentos.
Nem se lembrava mais do ponto de partida, queria parar ao tempo em que queria continuar, sem nem ao menos saber onde pretendia chegar.
Inutilmente dizia não, para em seguida sucumbir ao coração.
Sensível e frágil essa menina fera, havia desistido dessa guerra.
Ao passo que, sem admitir, seguia ele guiando, seguia também amando.

Bateu de frente a decepção.

O amor fugiu ligeiro

Aqui não há mais nenhum passageiro.

Dá próxima vez, não vá se  arriscar.

Pegue outro trem e siga em frente

Nem todo mundo que sabe guiar....

...sabe amar como a gente!

Aprenda essa lição:

Que sabe ser motorista

Evita a colisão!

sábado, 31 de dezembro de 2016

De repente, o hoje torna-se o passado que tem que ser escondido a sete chaves. Em um instante, segui e não posso mais lembrar dos caminhos por onde andei.
Posso saltar os estágios e parecer confiante, segura, decidida. Num pulo, estou em outra vida, outros rumos, outras coisas, pessoas, outros. Mas assim que paro um segundo, tomo fôlego dessa veloz continuidade que as coisas exigem que eu tenha, está ali, tudo o que eu pensei poder ignorar. 
Posso encarar o desafio e assumir o personagem feliz, alegre. Satisfazer as espectativas todas criadas a respeito do modo como devo lidar com as dores, desabores. Posso muito bem estampar um sorriso largo, rir sutilmente ou até soar e ressonar gargalhadas escandalosas. Sou capaz de criar uma imagem Plena de felicidade e satisfação.
Nada faria em mim apagar essa verdade, essa torção interior dos órgãos. Uma cena de uma peça que pareça o que a platéia paga para ver. Enfrento o palco, sem ensaios, sem teste, saio de cena com alguns ruídos imitando aplausos.
No camarim me desfaço desse personagem que me faz muito mais parecer um palhaço.

terça-feira, 26 de julho de 2016

Eu não quero. Eu não posso

Eu não quero mais ser forte. Desejo ser amparada.
Eu não  quero mais agradar aos que desejam que eu esteja sempre sorridente, não  importando  o quanto esteja destroçada. Gostaria que me juntassem os cacos que eu nem sei onde foram parar quando explodi.
Eu não quero essa aparência de vitória. Espero poder assumir as minhas quedas tendo um colchão  no chão  onde eu possa me deitar, em qualquer  lugar. 
Eu nunca quis sorrir amarelo. Anseio por um colorido que há  muito tempo não  vejo.
Eu não  quero maquiagem que disface as olheiras, nem aplicativos de correção  facial.  Quero que vejam as rugas adquiridas após  noite e noites de lágrimas e soluços  incessantes.
Eu não  quero que me digam que me amam. Quero que me amem verdadeiramente.
Não  quero flores sobre o meu caixão. Quero qualquer coisa que faça florir a minha alma até  que a sinta tão viva dentro de mim que queira ser jardim florido aos que estejam ao meu lado.
Eu não  quero mais ser o que esperam de mim. Quero que saibam que nem sempre sou capaz do melhor, ainda que eu própria queira. 
Eu não  quero mais ser compreensiva. Ofertem-me também  compreensão.
Eu não  quero mais fingir alegria enquanto ouço  ofensas das mais obcenas. Aguardo que calem-se os ofensores.
Eu não quero ficar parada esperando a morte chegar, ou ser trazida. Poderiam me acolher braços abertos quando eu conseguir correr, ou braços suficientemente fortes, que me arrastem para longe dessa angústia.
Eu não quero esses padrões que me levaram a dar a marcha à  ré. Quero a liberdade de não  ter que me submeter à  uma infinita tortura emocional  e psicológica
Eu não quero mais essa admiração. Poderiam se orgulhar de mim por eu ser feliz, quando eu realmemte puder ser.
Eu não  quero que desejem  a minha felicidade. Sejam contribuição para que,  ao menos, eu não  esteja triste. 
Eu não quero perdoar repetidos erros. Eu não  me perdoo por tanta subserviência. 
Eu não queria. Eu sei que o querer, bem como o não  querer, não  é  poder. Não  posso.

sábado, 4 de junho de 2016

Me venha

Agora vem você, nas entrelinhas, nos entremeios do medo e da esperança. Eu não  o chamei, não  sei se os queria aqui; vc, o medo e nem a esperança.
Vem de mansinho, com mensagens sem sentido. Vem chegando, se apropriando; do meu tempo, dos momentos. Falando as coisas que eu  queria ouvir.
O lugar de onde vem eu não  sei, nem pelo quê  tem sido trazido. O que me deixa assim  é , por fim,  onde deseja ir.
Não  pareça  nada que não  seja ou que não  pretenda ser.  Não  pretenda  nada que faça  doer.
Não  pise no meu jardim, nas sementes novas que eu plantei  aqui.
Seja água  fresca que rega o vaso. Seja mais profundo, nunca raso.
Se não quiser ficar, nem venha. Mas se quiser sonhar, não se contenha!
Venha; escrito, desenhado, falado; não seja um número na agenda riscado.
Não crie lacunas, preencha até que não restem espaços; una, ajunte-se, aconchegue em abraço forte.
Não me venha tripudiar sob o meu corpo esfolado por incidentes afetivos cortantes. Não seja inconstante. Seja certeza a cada instante.
Não me venha se não for para fazer sorrir. Mas ser for por amor, pode vir!